Terra fértil

Antes eu me alimentava direito, tomava banho regularmente, tinha uma vida consideravelmente normal, até que descobri, neste nefasto mundo da Internet, uma simpática fazendinha que discretamente me seduziu e agora consome boa parte do meu tempo.
Preciso plantar milho, batata e cenoura, já não tenho tempo para relações sociais. Não me sobra tempo para ligar para meu querido pai biológico e pedir com educação que ele pare de procriar, afinal não me sinto bem ao andar pelas ruas da cidade sabendo que o indivíduo que me entrega um folheto pode ser um de meus muitos irmãos.
Preciso furtar milho, batata e cenoura, não me sobra tempo para ligar para minha linda mãe e perguntar por quê afinal, tenho a cabeça comprida. Por que na rua me chamam de "Cabeça de Snoopy"? Não, na verdade eu não ligo. Apenas me importo com a minha fazenda e com os meus rins. Ficarei aqui cuidando da minha colheita, até sentir uma pontada e perceber que preciso de um rim novo, somente neste dia começarei a busca pelos meus irmãos.

Tatu pai, tatu filho

Eu nunca ouvi da boca da minha mãe a seguinte frase: "Filha, seu verdadeiro pai é o Paul McCartney." Porém isso sempre foi tão óbvio para mim, os traços, a música em minha homenagem, enfim, tenho maturidade para superar isso. Sei que pai de verdade é quem cria, por isso respeito e amo meu pai adotivo, mas estou ansiosa para conhecer, no ano que vem, o meu progenitor.
Hoje em dia é normal não conhecer o próprio pai, acho que estranho mesmo é não conhecer um tatu-bola. Meu Deus! Eu não consigo pensar em outra coisa desde que visitei aquele blog. A autora dizia que ela sentia saudade da infância quando via o suposto tatuzinho. A princípio eu pensei que era uma moça do interior que cresceu no meio dos tatus, mas depois eu descobri que não, que não era do tatu que cavuca buracos que ela se referia, era de um bichinho de jardim que, pelo jeito, todo mundo conhece. Passei a ser meio que excluída e discriminada por não conhecer esse animalzinho. Nunca vi mesmo.
Quando meu primeiro filhinho nascer, quero que o pai biológico esteja por perto, mas antes que a criança seja apresentada ao pai, quero que mostrem a ela um tatu-bola.

Dorflex

Apesar de sentir dor em cada centímetro do meu pequeno corpo, me sinto bem mais musculosa que ontem, e para a informação daqueles que apostaram que eu desistiria no primeiro dia, saibam que estou disposta a ir mais uma vez naquela academia, templo da beleza, antro da tortura.
Eu não sei como tem mocinhas que se embelezam para ir paquerar os gatinhos bombados da academia, eu prefiro que eles não me enxerguem naqueles aparelhos que deixam meu glúteo em evidência ou servem como treinamento para o dia em que eu trouxer uma criança ao mundo. Sinto vergonha.
Sinto vergonha também daquela vovó, minha vizinha de bicicleta ergométrica, a frágil senhora atingia cerca de 50 Km/h, enquanto a jovem aqui não chegava nos vinte. Ninguém vai me obrigar a ir na academia quando eu me aposentar, até minha cadeira de balanço será automática, eu não pretendo trabalhar a vida inteira e depois fazer esforço para dar embalo.
- Vovó, eu vou fazer academia.
- Não, querida, faça plásticas.

Dinheiro, carneiro

Eu curtia minha insônia e mais uma vez repartia o dinheiro da Mega Sena. Durante os cálculos pensei que nunca ganhei porque nunca joguei e se nunca joguei a culpa é do sorvete.
Um freezer de sorvete na Casa Lotérica evita novos milionários na cidade, ao menos comigo acontece assim: Eu junto moedas e vou à lotérica, chego lá, olho para o balcão de jogos, olho para o freezer de sorvete, olho para o balcão de jogos e é lógico que prefiro o sorvete.
Com o sorvete a minha satisfação é certa, afinal eu nem tenho tanta certeza assim, que vou ganhar na Mega Sena.
- Moça, vai querer uma raspadinha?
- De limão, por favor.

Berros ou cacarejos?

Creio que essas feiras que começam com "Expo" e terminam com as últimas letras da cidade são todas iguais.
Houve uma época que eu ia na exposição para me divertir nos brinquedos mais seguros do parquinho, em outra época eu ia somente para flertar.
Hoje eu não gosto muito de flertar e decidi me arriscar nos brinquedos perigosos do parquinho, em um deles senti minha alma sendo lançada para longe do meu corpo e logo depois voltar como um bumerang.
Mas o que me deixou mais feliz dessa vez foi visitar os animais. Pude conhecer a Lindinha, uma linda Cavalinha (prefiro usar o termo cavala porque, hoje em dia, égua e cadela são palavras ofensivas).
Ela me cativou, tinha uma franja tão bonita, eu já tive franja e nunca ficava boa igual a dela.
No pouco que conversei com a Lindinha, me senti melhor, menos preocupada e mais confiante, ela passava uma energia legal.
Minha amiga também gostou e prosseguimos visitando outros animais.
- Vamos lá onde está escrito "Ovinos". O que são ovinos?
- Acho que são galinhas, vamos ver.

Barraca do Beijo nunca mais

Graças ao bom Deus acabou a temporada das festinhas caipiras. Se eu quisesse pediria para um analista me ajudar a superar esse suposto trauma, mas não quero, eu gosto de odiar quadrilha, pessoas que se arrumam para ficarem feias e todos aqueles doces de amendoim.
Fora isso, eu gosto de me socializar, acho importante essas confraternizações, só não sei até quando elas existirão. É óbvio que em algum país um vilão pensou: " Os latino-americanos são tão sociáveis, tão hospitaleiros né? Que pena que nós não somos, mas não tem problema, criarei um monstrinho microscópico que dará um jeito nisso. Mu Ha Ha Ha Ha!
E foi assim, agora as pessoas não podem desejar a paz de Cristo com um aperto de mão na Missa para não serem contaminadas. A sociedade ficará cada vez mais fria, se bem que existem aqueles teimosos que não têm medo de doença e gostam de se relacionar.
As pessoas deveriam levar um choque a cada contato físico.

Tal mãe, tal filha

Uma série de TV Americana abriu meus olhos para o que eu já sabia , um mapa numerológico me aconselhou e me mostrou que eu não sou e nem estou pronta para ser independente, e não falo de explosões na cozinha (nem quero falar sobre isso, ainda me abala muito). O que quero dizer é que apesar de me virar sozinha por aqui, eu preciso dela.
Que apesar de gritar para o mundo que meu amor pela minha avó é inexplicável para a ciência, a importância da filha dela em minha vida é diferente e única.
Que apesar de não concordar com certas ideias e achar que ela deveria se preocupar menos, eu sei que ela sabe que somos parecidas e não quer que eu cometa os mesmos erros.
Que apesar de saber que juntas brigamos o tempo todo, longe sinto saudade, e quando sinto saudade, olho no espelho, jogo o cabelo um pouco para o lado e a vejo.
Que apesar de mudar meus planos constantemente, em todos eles o principal objetivo é fazê-la feliz.